{"id":5882,"date":"2025-12-15T18:05:47","date_gmt":"2025-12-15T17:05:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.somicmf.org\/um-fogo-que-tambem-arde-ate-ao-fim-do-mundo\/"},"modified":"2025-12-16T13:03:07","modified_gmt":"2025-12-16T12:03:07","slug":"um-fogo-que-tambem-arde-ate-ao-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.somicmf.org\/pt-pt\/um-fogo-que-tambem-arde-ate-ao-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Um fogo que tamb\u00e9m arde at\u00e9 &#8220;ao fim do mundo&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><p>Ingeniero Jacobacci localizada em Argentina, \u00e9 a miss\u00e3o mais austral da Congrega\u00e7\u00e3o e faz parte da Prov\u00edncia Claretiana San Jos\u00e9 del Sur. Este lugar tamb\u00e9m \u00e9 conhecido como Wawel Niyeo, que na l\u00edngua mapuche significa <em>lugar onde brota a \u00e1gua<\/em>.<\/p><\/p>\n\n<p>Se percorrermos alguns quil\u00f3metros a partir das pequenas aldeias da zona, poder\u00edamos dizer que esta comunidade est\u00e1 \u00abno meio do nada\u00bb. Esta express\u00e3o costuma ser uma forma de explicar a incr\u00edvel imensid\u00e3o destes lugares, embora seja uma defini\u00e7\u00e3o que n\u00e3o faz jus \u00e0 paisagem nem ao trabalho mission\u00e1rio, hist\u00f3rico, ecum\u00e9nico e vital que se desenvolve nestas terras.<\/p>\n\n<p>Os Mission\u00e1rios Claretianos percorrem este territ\u00f3rio h\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas e a fidelidade ao modo de viver a miss\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel no trabalho com outros que se desenvolvem nesta periferia e que atualmente t\u00eam o seu correlato na articula\u00e7\u00e3o com organiza\u00e7\u00f5es do povo mapuche e habitantes que, independentemente das suas express\u00f5es de f\u00e9, partilham o caminho na constru\u00e7\u00e3o do Reino.<\/p>\n\n<p>Wawel Niyeo faz parte do Wallmapu, que \u00e9 o territ\u00f3rio ancestral mapuche. Muito antes da exist\u00eancia dos Estados modernos, entre o Atl\u00e2ntico e o Pac\u00edfico, no que hoje conhecemos como Patag\u00f3nia argentina e chilena, com a cordilheira dos Andes como testemunha, viviam, deslocavam-se, trocavam e tinham a sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e, como povo, diversas fac\u00e7\u00f5es do povo mapuche. A consolida\u00e7\u00e3o dos Estados e a necessidade de expans\u00e3o territorial no final do s\u00e9culo XIX levaram tanto a Argentina como o Chile a iniciar campanhas militares  com o apoio da Igreja da \u00e9poca, para ampliar as suas fronteiras para o sul. Este processo de expans\u00e3o exigiu e assentou num cruel genoc\u00eddio contra os mapuches, que ainda hoje clamam para que o Estado argentino assuma a responsabilidade pelo crime perpetrado contra o povo pr\u00e9-existente.<\/p>\n\n<p><p>Dentro desta hist\u00f3ria e destes cen\u00e1rios, especificamente nestas terras, a <em>Igreja do sul do mundo <\/em>foi-se transformando num ator indispens\u00e1vel que caminha e se esfor\u00e7a por reparar os danos institucionais causados a um povo ancestral. Abra\u00e7ada e apoiada hoje pelo magist\u00e9rio que nos deixou o Papa Francisco, \u00e9 uma igreja que se reflete naquele pedido de perd\u00e3o que o pr\u00f3prio Papa fez pelos crimes que, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, a Igreja cometeu contra esses povos. E tamb\u00e9m \u00e9 uma igreja que foi colhendo os frutos que, h\u00e1 mais de 50 anos, os Filhos do Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria t\u00eam semeado nestas latitudes.<\/p><\/p>\n\n<p>Uma vez conclu\u00eddas as campanhas militares que provocaram o genoc\u00eddio contra o povo mapuche em ambos os lados da cordilheira, o exterm\u00ednio continuou com pol\u00edticas de invisibiliza\u00e7\u00e3o que inclu\u00edram a proibi\u00e7\u00e3o de falar na l\u00edngua nativa, vestir-se de acordo com as suas tradi\u00e7\u00f5es ou celebrar as suas cerim\u00f3nias. Foi uma expropria\u00e7\u00e3o territorial, mas tamb\u00e9m espiritual. <\/p>\n\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo XX, os sobreviventes daquele genoc\u00eddio, transformados em pequenos produtores pecu\u00e1rios que ocupavam pequenas parcelas pouco produtivas, dedicaram-se \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de ovinos e caprinos e foram v\u00edtimas de pr\u00e1ticas estatais, mas tamb\u00e9m comunit\u00e1rias, que os mantinham na pobreza e na exclus\u00e3o. Nesse contexto, surgiu a Igreja a que nos referimos: aquela que, no nosso Continente, iluminada por Puebla e Medell\u00edn, resistiu \u00e0s ditaduras militares, transformando-se em servidora das causas dos pobres.<\/p>\n\n<p><p>Um marco que tamb\u00e9m \u00e9 heran\u00e7a para aqueles que hoje caminhamos na miss\u00e3o foi a aprova\u00e7\u00e3o da Lei Integral Ind\u00edgena da Prov\u00edncia de R\u00edo Negro, em 1988. Naquela \u00e9poca, o Presb\u00edtero Francisco Fern\u00e1ndez Salinas (Padre Paco), mission\u00e1rio dos Sagrados Cora\u00e7\u00f5es, abriu as portas da nossa Igreja San Francisco, para que se transformasse numa ruka (<em>casa, <\/em>na l\u00edngua mapuche) disposta para a delibera\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o. Do lado claretiano, e noutra zona vizinha desta Linha Sul, o P. Carlos Calgaro acompanhou decididamente este processo, priorizando tarefas para a funda\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de Cooperativas Pecu\u00e1rias em toda a regi\u00e3o.<\/p><\/p>\n\n<p>Desse trabalho articulado, com forte tradi\u00e7\u00e3o cordim\u00e1ria, esta comunidade mission\u00e1ria sente em toda a sua magnitude a premissa de que \"n\u00e3o se pode ser claretiano como se os pobres n\u00e3o existissem\". Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode ser claretiano sem denunciar as estruturas de injusti\u00e7a. <\/p>\n\n<p>O trabalho que os Mission\u00e1rios Claretianos realizaram nas comunidades pr\u00f3ximas a Jacobacci contribuiu para a organiza\u00e7\u00e3o do povo mapuche em busca de pr\u00e1ticas que n\u00e3o colidissem com as suas tradi\u00e7\u00f5es ancestrais, a cria\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o que contemplasse a interculturalidade, o resgate da l\u00edngua ancestral, j\u00e1 que, sendo um povo analfabeto, toda a transmiss\u00e3o cultural ou espiritual se baseia na oralidade. <\/p>\n\n<p>Mais recentemente, uma tarefa fundamental que acompanha a Congrega\u00e7\u00e3o \u00e9 a defesa da \u00c1gua e do Territ\u00f3rio. Mas... porqu\u00ea este lema? <\/p>\n\n<p>A cosmovis\u00e3o do povo Mapuche, como a maioria dos povos ancestrais do mundo, considera que tudo o que \u00e9 animado e inanimado com o qual convivemos faz parte de um equil\u00edbrio delicado que deve ser preservado. E se aprofundarmos um pouco mais e deixarmos de lado o olhar colonial e colonizador de que este povo tem sido objeto, podemos dizer que cada elemento da Cria\u00e7\u00e3o tem sua pr\u00f3pria for\u00e7a que o rege, que tudo est\u00e1 interligado, tudo tem sua forma de se fazer presente em nossa vida.<\/p>\n\n<p>Por volta do ano 2000, come\u00e7a a ganhar for\u00e7a a presen\u00e7a de empresas transnacionais com a inten\u00e7\u00e3o de extrair bens comuns do subsolo. A a\u00e7\u00e3o de empresas com estas caracter\u00edsticas colide totalmente com a cosmovis\u00e3o mapuche. Podemos pedir a um povo cujo templo \u00e9 a Casa Comum que permita uma destrui\u00e7\u00e3o destas caracter\u00edsticas? O territ\u00f3rio \u00e9, para o povo Mapuche, o templo da Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 o ar livre onde se desenvolvem todas as atividades que d\u00e3o sustento material e espiritual \u00e0 sua vida. Eles consideram a \u00e1gua (assim como n\u00f3s) um bem comum indispens\u00e1vel para os rituais, mas tamb\u00e9m para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n<p>Como Fam\u00edlia Claretiana, tamb\u00e9m acompanhamos h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas o clamor pelo cuidado da Casa Comum a partir do grito dos pobres. A articula\u00e7\u00e3o da perspectiva da JPIC com atores eclesiais e comunit\u00e1rios permitiu-nos participar de espa\u00e7os de reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o que respondem em conjunto \u00e0 experi\u00eancia do evangelho encarnado, posicionando-nos a partir do lugar dos pobres e tra\u00e7ando um caminho nesse sentido.<\/p>\n\n<p>Se nos detivermos na enc\u00edclica Laudato Si\u2019, na sec\u00e7\u00e3o em que Francisco se refere \u00e0 minera\u00e7\u00e3o em grande escala, veremos que ela se baseia na reflex\u00e3o feita pelos Bispos da regi\u00e3o da Patag\u00f3nia-Comahue, no Natal de 2009. Ela surge a partir desta latitude, a partir deste povo. Ou seja, a trajet\u00f3ria de f\u00e9 de uma comunidade, acompanhada por seus pastores, muitos deles claretianos, em fidelidade ao evangelho, animados por Santo Ant\u00f3nio Maria Claret, \"desde o fim do mundo\", se materializou na Doutrina Social da Igreja.<\/p>\n\n<p>A Miss\u00e3o Claretiana \"do fim do mundo\" pode ser lida como um ponto de partida porque colhe o fruto daquela semente que os nossos antepassados semearam em terra f\u00e9rtil, porque caminha ao lado dos perseguidos, exclu\u00eddos e invisibilizados, porque aposta tudo pela vida em abund\u00e2ncia para todos e porque quer ser aquela igreja que arde em caridade e acende um fogo de amor por onde passa.<\/p>\n\n<p>por Claudia Huircan<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ingeniero Jacobacci localizada em Argentina, \u00e9 a miss\u00e3o mais austral da Congrega\u00e7\u00e3o e faz parte da Prov\u00edncia Claretiana San Jos\u00e9 del Sur. 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